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Meus Contos





A VELHA E MONSTRO

Chovia torrencialmente quando o carro do vendedor misteriosamente estourou dois pneus. Já era madrugada e a estrada estava deserta. Ele se arrependera de não ter pernoitado na cidade anterior. Fumou um cigarro. A chuva estiou e ficaram apenas os relâmpagos e os trovões.
Ele era experiente em viagens noturnas e já dormiu no carro outras vezes, mas, desta vez, sentiu medo. Cochilou. Vozes empestadas de sofrimento acordaram-no num sobressalto! Assustado olhando em sua volta, percebeu que estava em frente a um sítio. As luzes estavam acesas, então decidiu ir pedir ajuda. No caminho viu vários carros parados próximo a casa. Devia ser oficina, pensou.
Bateu palmas. Insistiu. Até que uma velha carcomida pela osteoporose e com voz rouca lhe atendeu. Com fineza ela lhe ofereceu um chá quente. Após ter bebido todo chá ele se sentiu totalmente drogado. Então a velha pegou seu antebraço com firmeza e o levou para um quarto e deitou-o numa cama fétida.  Debaixo da cama saiu um Monstro horrível. Desesperado, grogue e sem forças, ele ainda viu a velha sorrindo cinicamente saindo do quarto e fechando a porta.


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Conto a Velha e o Monstro em vídeo



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“Uma injúria permanece irreparada, quando o castigo alcança aquele que se vinga. Permanece, igualmente, sem reparação, quando o vingador deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que é ele quem se vinga”.
E. A. Poe






A FACE DO SUSTO
        Eu, que tenho uma personalidade voltada a apreciar boas histórias, revelo que o gênero que mais me atrai: é o sobrenatural. Devido essa particularidade, como passa-tempo, propus-me a pesquisar casos relacionados a fenômenos que fogem a compreensão e a lógica humana.
Em vista disso, não posso deixar escapar nenhuma oportunidade, para coletar elementos sobre esse assunto que tanto estimula a minha imaginação.
Por isso, em todos os momentos encontro-me pronto para taquigrafar em minha inseparável agenda de bolso, histórias interessantes e instigantes que ocorrem nas entrelinhas de nossas vidas.
Essa minha qualidade leva-me a crer, que em determinados momentos, assumo traços psicológicos inerentes a uma pessoa que passa por um surto de paranóia. Explico: Em “alguns” desses assuntos de natureza pouco convencional, que me proponho a pesquisar, “inexplicavelmente”, eu passo de pesquisador a também personagem como num passe de mágica.
Portanto, quando esse fenômeno acontece, faz-me conjeturar, que há alguma entidade sobre-humana, impelindo-me a passar por essas experiências extraordinárias para ser o mensageiro de suas aspirações. E devo confessar: “gostar dessas histórias é uma coisa, mas agora, vivê-las é completamente outra”.
A história que relato a seguir, acreditem, aconteceu comigo há alguns dias, e retrata bem esse fenômeno que esporadicamente me atormenta.
No entanto, por se tratar de um assunto que para muitos ainda é um tabu, devo ressaltar, que tomei a precaução de omitir o nome da região e o nome da cidade em que esse “fato” aconteceu.


     Recentemente, um amigo que foi transferido a trabalho para uma cidade do interior do estado, telefonou convidando-me para o aniversário de seu primogênito. Como já fazia algum tempo que não via meu estimado amigo, confirmei minha presença no evento e aproveitaria a ocasião para espairecer, pois meu ultimo trabalho havia me causado um enorme cansaço mental.
De malas prontas com o suficiente para passar o final de semana, embarquei no ônibus, num sábado pontualmente às 08h00m. O percurso era de 480 km, e a previsão dada pelos funcionários da empresa de transporte, era que seria uma viagem em torno de oito horas, mas que poderia sofrer um atraso, devido às péssimas condições de preservação da estrada federal.
Por ser uma viagem razoavelmente longa e enfadonha, levei um livro para distrair-me. Revezando-me entre o livro e a contemplação da paisagem, que pra dizer a verdade não tem mais a originalidade e a beleza de outrora, cochilei.
Fui despertado num sobressalto, pois o ônibus parecia ter se envolvido em algum acidente. Assustado, fiz uma rápida averiguação e descobri que havíamos passado em uma “panela”, nome dado pelos motoristas a buracos nas estradas e que muitas vezes são a causa de muitos acidentes.
Depois do ocorrido anotei em minha agenda, que este sentimento “o Susto”, seria um bom assunto para uma próxima pesquisa, aja visto que, trata-se de uma sensação ligada diretamente ao medo, ou seja, uma reação em face de uma ameaça de perigo real ou imaginária.
Satisfeito por ter encontrado nesse acontecimento casual, um novo tema para minhas especulações, perdi-me em devaneios olhando uma imensa plantação de soja. Foi então que entramos no perímetro rural de um município. Inclinei-me para visualizar melhor uma placa que vinha adiante, e a informação era de que em 15 km, estaríamos na cidade. Pelo horário supus que seria lá a nossa parada para o almoço.
Passaram-se vinte e cinco minutos e algumas lombadas, então adentramos na cidade. Passando lentamente pelo centro comercial, vi uma loja que me despertou a atenção. Com a fachada toda pintada da cor preta com uma placa acima da porta de vidro com um sugestivo nome: Sebo Sobrenatural compra, venda e troca, de livros usados. Livraria especializada nos gêneros: Esotéricos; Espíritas; Fantástico; Horror; Mistério; Místicos; Sinistros; Sobrenatural; Suspense e Terror. Fiquei pasmo de admiração, que deixei escapar um comentário enfeitiçado – “Caramba! O proprietário dessa loja deve ser aficionado como eu por esses tipos de gêneros. Definitivamente é o lugar. Preciso conhecer essa loja!”.
Com a livraria ainda em meu campo de visão, vi quando um homem, que parecia estar colocando algo na maçaneta da porta, se voltar e olhar enigmaticamente para ônibus. Devo ressaltar, que a impressão que eu tive, foi que o sujeito olhou por alguns segundos, diretamente para mim. E só depois entrou. Num gesto brusco, acomodei-me na poltrona e uma sensação estranha apoderou-se de mim, gerando-me um rápido desconforto. E essa inquietação foi fragmentada pelo anúncio do motorista, que teríamos trinta minutos para o almoço. Só então eu percebi que o ônibus já estava estacionado na rodoviária.
Aguardando a vez para descer, resolvi aproveitar o intervalo para dar uma olhada na livraria. Mesmo sabendo que a “curiosidade matou o gato”, eu precisava matar a minha curiosidade. Além de que, achava-me sem apetite e faltavam poucas páginas para concluir a leitura de meu livro e certamente precisaria de outro para entreter-me.
Porém, logo que desci, ocorreu-me que teria pouco tempo para escolher um livro, visto que o livro que eu estava lendo naquele momento, levou duas horas para eu escolher dentre tantos títulos que havia na livraria. E como eu detesto fazer as coisas às pressas resolvi interromper aqui a minha viajem.
Decidido dirigi-me até o guichê da empresa a qual estava utilizando, e me informei, que o próximo ônibus com destino a cidade para onde eu estava indo, sairia às 13h 45m. Consultei o meu relógio eram 11h 25m, isso me dava uma margem de mais ou menos duas horas, tempo suficiente para que pudesse comprar um bom título. E essa pequena interrupção, não afetaria em nada minha programação, já que o aniversário para qual eu estava indo, seria só no dia seguinte.
Resoluto, retornei ao ônibus para buscar a minha bagagem, foi quando notei que as janelas do veículo em cobertas por uma fina camada de insul-film bem escuro, portanto era impossível uma pessoa que estivesse fora do ônibus, visse algum passageiro. Essa conclusão dissipou a impressão de que o sujeito que entrou na livraria tivesse olhado para mim. Mas, que foi uma instigante sensação. Ah! Isso foi.
Para facilitar a minha locomoção, deixei minha bagagem no guarda-volume da rodoviária e sai fazendo o trajeto contrário ao do ônibus. E não foi preciso andar muito e nem pedir informações, pois mal sai da rodoviária, avistei a livraria uns cinqüenta metros de distância. Após breve caminhada, cheguei à bendita loja de livros. O vidro fume da porta impedia-me de ver seu interior aguçando ainda mais a minha curiosidade.
Pendia na maçaneta da porta uma plaqueta com uma frase imperativa: “ENTRE! A LOJA ESTÁ ABERTA”. De pronto obedeci.
Diante de mim, surgiu a mais extravagante e esquisita decoração, que uma livraria poderia ter. E esse diferencial, deixou-me estático ao pé da porta, contemplando vislumbrado o visual. A propósito, não havia vivalma a vista. E enquanto, aguardava aparecer alguém para atender-me, inventariei o lúgubre e soturno ambiente.
Bom, a minha esquerda havia uma mini-sala, composta por um jogo sofá, um tapete sem detalhes e uma mesinha de centro. Na parede, tinha vários quadros com retratos dos mais célebres autores in memórian, que se destacaram nos gêneros a qual a livraria se propunha a trabalhar. Tipo um hall da fama. Adjacente aos quadros tinha uma estante com muitas repartições reservadas aos gêneros: Espíritas; Esotéricos e Místicos. No centro paralelamente havia duas estantes onde estavam os gêneros: Fantásticos; Horror e Sinistros.
Ao meu lado direito, tinha o balcão de atendimento e ao lado dele, havia uma redoma de vidro, com um enorme livro medindo em torno de 60x40 cm, que atiçou e muito a minha curiosidade. Firmei minha vista e li numa etiqueta que lá estava colada: “Livro dos Mortos”. Após a leitura, um friozinho percorreu toda extensão da minha espinha dorsal, fazendo-me sacolejar levemente o meu corpo – “Realmente o dono dessa livraria pensou em tudo, até uma réplica do lendário Livro dos Mortos ele tem aqui”-Comentei comigo mesmo. Adjacente a essa redoma, começava a sessão dos Gêneros: Sobrenatural; Suspense e Terror. Olha, devo ressaltar que se uma pessoa fosse incumbida para catalogar todos os títulos existentes nessa livraria, calculo que levaria meses para concluir o serviço. Diante disso, meu encantamento e minha vontade de revirar tudo só aumentavam. Porém, continuei parado a espera de atendimento e prossegui com meu exame.
Enfatizo que a pintura interna, os móveis e equipamentos eram da cor escura e dava um toque sombrio no recinto. A iluminação do interior era feita por um belíssimo candelabro que pendia no hall de entrada, nesse momento, bem sobre a minha cabeça, e por quatro castiçais que estavam colocados no inicio de cada prateleira. Todos tinham lâmpadas florescentes que imitavam velas de cera. E a claridade emitida por aquelas fontes, iluminava apenas o hall de entrada, e o que se via lá no fundo da loja era uma cortina negra de sombras dando uma ligeira impressão, que as prateleiras de livros sumiam dentro de um túnel infinito.
A queima de um incenso aromático, emprestava ao local, um aspecto místico e extremamente relaxante.
O encantamento foi quebrado, pelo fundo musical lamentoso, que saia de algum alto-falante e aquela música bem poderia ser utilizada para fazer trilha sonora de filmes de suspense.
Ligeiramente inebriado, resolvi chamar por alguém.
– Oi! Tem alguém ai? – algo incrível aconteceu. O som da minha voz ecoou repetidamente como se eu estivesse à beira de um abismo, enchendo-me de terríveis fantasias. Por tudo que vi e senti, tinha que salientar “o cara que criou essa acústica e toda essa decoração deve ter uma imaginação muito fértil, pois não tinha visto nada igual em toda minha vida”. Como não apareceu ninguém, voltei insistir.
– Oi?— o som voltou a se propagar. E nada.
Então decidi ir dando uma olhada até que aparecesse alguém. Tinha tantos livros para eu olhar, que precisaria dispor de muito tempo para ver tudo. Pensando nisso, peguei meu celular, que estava no bolso da frente de minha calça para verificar as horas. Eram 11h56min, e por vias das dúvidas, programei o despertador para despertar às 13h30min, deixando uma margem de quinze minutos, para que eu pudesse retornar com segurança para rodoviária e assim pegar o ônibus das 13h45min.
Reparei com fascínio toda extensão da loja, não sabendo por onde começar. Até que pousei meus olhos novamente sobre a redoma de vidro, que insinuava conter o “Livro dos Mortos”, então decidi iniciar por ali a minha pesquisa, visto que, foi algo que me deixou demais curioso.
Diante da redoma, inclinei-me para melhor focalizar a capa do livro. Então Percebi que era composta por nódulos de vários formatos e em alto relevo, e havia algo escrito com caracteres por mim desconhecidos. Mas que a etiqueta sugeria de maneira muito fantasiosa tratar-se do lendário “Livros dos Mortos”.
Com os olhos sobre a capa do livro, sofri um golpe de vista e tive a sensação fantástica que um daqueles nódulos, tinha se mexido. E para conferir o inusitado, inclinei-me mais um pouco, quase encostando a testa no vidro. E numa ilusão de ótica medonha todos os nódulos se transformaram em corpos humanos nus, passando uns sobre os outros, como se fosse um amontoado de vermes. E emitiam num unissoro, um choro de cheios de lamurias e de sofrimentos.
Eis que, um daqueles corpos, voltou-se para mim, e vi que em seu rosto não tinha olhos, mas mesmo assim estendeu a mão em minha direção, numa atitude desesperada que quem pede ajuda. Hipnotizado com o fenômeno, instintivamente, estendi a mão em seu socorro. E já estava quase tocando no vidro, quando um estalar de dedos (num gesto característico de um hipnotizador), e uma voz enérgica e viril tirou-me bruscamente daquele sortilégio.
– Posso ajudar?
O susto fez-me endireitar o corpo num movimento brusco.
– Desculpe-me senhor. Permita-me apresentar-me, meu nome é Luciano Ferreira, sou o proprietário dessa humilde livraria. Ah! Não foi minha intenção assustá-lo - Sua voz tornou-se calma e serena e um tanto quanto envolvente.
De volta a razão, eu olhei compenetrado o sujeito que aniquilou meu devaneio. E naquele instante percebi que estava de fronte com a mesma pessoa que vi na frente da loja, no momento em que passei de ônibus e tive a sensação sinistra que ele materializou-se misteriosamente atrás do balcão. O sujeito mirava-me com o mesmo jeito enigmático e por uma fração de segundos divagou nos confins de minha alma, fazendo-me desviar fugazmente daquele olhar.
Tratava-se de um jovem senhor, na faixa de seus quarenta anos, estatura mediana e magra. Estava vestido calça e camisa nos padrões atuais, da cor preta. Que contrastava com uma tez de uma palidez mórbida.
Os olhos oscilavam estranhamente, entre o castanho claro e o escuro, e eram protegidos por um conjunto de pálpebras, que se assemelhava a quem nasce no extremo oriente. As sobrancelhas eram rarefeitas. O nariz afilado, seguido de uma boca firme e que parecia não ter lábios. O queixo proeminente. Os cabelos pretos e lisos deixavam a mostra apenas as partes superiores das orelhas, que tinham um formato pontiagudo. O conjunto todo formava uma fisionomia de aspecto extremamente exótico e peculiar.
– Senhor? O sujeito trouxe-me novamente para a realidade e notei que sua voz voltou a ficar enérgica e viril.
– Como? Ah, sim. O susto, não... Não foi nada – respondi hesitante, e por fim apresentei-me.
– Nada. Você quase morreu de susto – Ele disse sorrindo deixando a mostra dentes perfeitos e alvíssimos.– Não... É que eu estava admirando aquela réplica e...
– Réplica ­­– atalhou – que réplica? Esse é o único e verdadeiro “Livro dos Mortos”—falou com uma seriedade que me espantou, mas logo em seguida, satisfeito por atingir seu objetivo, sorriu cativante e disse:
— Brincadeirinha, só pra descontrair. Realmente é uma réplica do famoso Livro dos Mortos. Porém, eu vou confessar uma coisa pra você. Este livro, na verdade é um brinquedo que eu comprei num antiquário em uma das viagens que fiz a Europa. Com uma iluminação adequada ele causa uma ilusão de ótica que é acionada com aproximação de alguém, e o resultado você viu, é um tremendo susto.
Luciano Ferreira usou de franqueza em suas palavras. E isso fez dissipar os pensamentos nefastos, que transbordava na minha mente, deixando-me serenamente relaxado.
– Já que é pra dizer a verdade, eu assumo. Assustei mesmo – Sorri sem graça – Estou pensando em até escrever alguma coisa sobre o susto, esse sentimento tão perturbador – Declarei.
– Sério! Legal! Então temos aqui um escritor?
– Não. Não. Quem me dera. Eu só transformo os causos que ouço por ai, em pequenos contos. Porém, procuro ser sempre fiel à história original. Mas, faço só como passa-tempo – Expliquei.
– Que modéstia. Mas, então se fosse você iria fazer parte do time do sobrenatural, do terror, do fantástico? – enquanto falava fazia gestos de horror e de assombros de um jeito engraçado, fazendo-me sorrir.
– Sim. É que esse gênero muito me agrada – Respondi começando a sentir que minha gastrite ia me atacar. Em virtude disso meu sorriso transformou-se numa careta. Neste momento, me virei e olhei na direção das prateleiras, dando a entender gostaria de inspecioná-las.
– Ah. Você deve estar ansioso para dar uma olhada nos livros, não é mesmo? Mas antes, já que você precisa colher dados para seus contos, digamos assim. Eu... Quer dizer... Um cliente da livraria contou-me uma história interessante, sobre dois amigos que viviam dando susto um no outro. E ele garantiu-me que esse caso realmente aconteceu. Se você quiser, eu posso te contar. Bom... Sei lá. Você poderia usar como base para um de seus contos.
Como um vendedor, que conduz habilmente o cliente, para o fechamento da venda, Luciano Ferreira conduzia-me para algum lugar. Não sei por que, mas não conseguia desvencilhar-me dele. Talvez, não sei... Mas, o brilho intenso de seus olhos seduzia-me. Então, num gesto mecânico, retirei do bolso de minha camisa, a minha pequena agenda e meu lápis. Encostei-me no balcão e cheio de curiosidade perguntei:
– Como é mesmo essa história?
– Mas... Se você preferir...
– Já que você contou o milagre, conta agora o nome do santo.
– Muito bem! Então vamos lá – disse ele deixando transparecer em sua voz, um tom soturno próprio de quem vai contar um causo de assombração.
– Bom – limpou a garganta – A história é sobre dois amigos inseparáveis, um chama-se Christian e o outro Josué. Quem os conhecia, pensava que eles eram irmãos, devido amizade que existia entre os dois. E, além disso, eram vizinhos, estudavam na mesma escola e na mesma série.
Dentre tantas brincadeiras que tinham, a que eles mais gostavam, era a de pregar susto um noutro. Começaram com as básicas e tradicionais debaixo da cama e atrás da porta, que foram sendo sofisticadas com o passar dos anos.
Na adolescência, a brincadeira atingiu uma qualidade digna de filme de terror. E sempre um querendo superar o outro, na produção do cenário até na finalização do ato.
O que eles não sabiam, é que o susto e outros tipos de brincadeiras tidas como de mau gosto, que despertam a sensação do medo, atrai um sinistro espectador. Que fica ali... Observando... Na penumbra. A espreita. Ansioso para se deliciar, com o susto estampado no rosto da vítima. Porém quando, esse tipo de brincadeira vira um ciclo vicioso e tem o tempero da vingança, o espectador resolve fazer uma participação especial e lança sombras fúnebres, nas vidas de quem ousam aventurar-se por caminhos aonde tudo é mistério.
(Luciano Ferreira articulava as palavras com distinção e clareza, que facilitavam a transcrição para minha agenda em notas taquigráficas. No entanto, senti uma pequena mudança no timbre da sua voz, agora estava levemente mais grave, principalmente neste ultimo parágrafo).
A coisa atingiu o ápice, quando a turma do ensino médio, a qual eles faziam parte, a fim de arrecadar fundos para a formatura. Promoveu num final de semana um acampamento ecológico, com a saída numa sexta-feira à tarde e retorno no domingo.
A animação dos amigos era visível. E durante toda semana que antecedia ao evento, não se falava de outra coisa. Mas, na quinta-feira à noite, bem na hora em que estavam jogando a tradicional pelada no clube aonde eram sócios, deu uma tremenda chuva de verão, de lavar a alma. E Christian, amanheceu muito gripado na sexta-feira, tinha febre e tosse. Até a tarde nenhum remédio havia aliviado a enfermidade e seus pais não autorizaram a sua ida ao acampamento. E o que amenizou a sua frustração, foi que lhe veio na mente à idéia de vingar-se do susto que Josué lhe dera há alguns dias. E, diga-se de passagem, foi um susto de arrepiar os cabelos.
Como era de praxe, Christian teria que dar o troco e momento era mais do que propicio, já que, Josué só retornaria domingo, provavelmente a tardezinha. Portanto teria tempo de sobra para preparar sua fatídica vingança. Josué era ciente que ia levar o troco, só não sabia quando nem como. E Christian por sua vez, deixou a poeira abaixar e pintou essa oportunidade. Agora com a vantagem da surpresa, estava com a faca e o queijo nas mãos. É claro, que preferia ter ido ao acampamento, que com toda a certeza rolaria altas paqueras. Mas, o destino não quis fazer o quê? E Christian sorriu maliciosamente, premeditando os acontecimentos.
(Nossa! Luciano Ferreira sabia mesmo contar uma história!).
No sábado, Christian acordou um pouco melhor, e com muito custo conseguiu autorização para sair, pois, para realização de seu plano precisava comprar alguns acessórios. E para completar, fez uma visita à casa de seu amigo, com a intenção de verificar, alguns detalhes indispensáveis para finalizar sua estratégia.
O domingo chegou ensolarado. E Christian minuto a minuto, conferia as horas. Porém o dia teimava em passar lentamente. Nuvens carregadas deixaram à tarde com um ar sombrio. Em vista disso, a ansiedade de Christian só aumentou, e percebeu que jamais tivera uma sensação tão estranha que chegava ao ponto de ser até selvagem.
Já estava quase escurecendo, quando o ônibus finalmente apontou duas quadras de suas casas. Nem preciso dizer da euforia que tomou conta dele.
Com o plano mentalmente esquematizado, caminhou quase correndo até o portão da de Josué e apertou a campainha três vezes. Retornou correndo para sua casa. Pela sua dedução, o pai de Josué não largaria o jogo do palmeiras, por nada desse mundo. Portanto quem atenderia o portão, seria a dona Sofia, que provavelmente, a procura de quem apertou a campainha, veria o ônibus e ficaria em frente da casa, a espera do desembarque de seu filho, deixando o fundo da casa desguarnecido, para sua ação.
Christian entrou correndo em sua casa, pegou uma mochila que o esperava na área de serviço, e ofegante subiu numa mesa de madeira para pular o muro que dividia as residências. Mas, antes deu uma rápida olhada na situação e com cautela pulou o muro. Convicto rumou para a edícula que fica nos fundos da casa de Josué que servia de depósito de quinquilharias. Pelos seus cálculos dona Sofia faria Josué guardar no depósito, todos os objetos utilizados no acampamento. E ele estaria lá esperando, pronto para por seu plano em ação.
Christian adentrou rapidamente, fechando a porta atrás de si. Apesar de estar anoitecendo, notou que a bagunça estava organizada. Graças ao perfeccionismo de dona Sofia.
Parado de costas para a porta, Christian via no lado esquerdo uma antiga máquina de costura, uma bicicleta ergométrica enferrujada e na parede havia um espelho com uma bela moldura desgastada. Em sua frente uma estante rústica com várias repartições cheia de coisas e a sua direita havia um havia um velho biombo revestido com papel colorido do tempo do ronca. Que outrora ele vira decorando o quarto dos pais de Josué. E agora serviria para seu propósito.
Lá de fora, veio o som do ônibus parando. E até Josué tirar suas coisas e despedir dos amigos, dava tempo para se preparar. Então foi para trás do biombo, abriu a mochila e de lá tirou todos os acessórios. Despiu-se. Guardou suas roupas na mochila e pos a vestir-se. Colocou um macacão vermelho com rabo, pôs uma capa preta e montou um tridente. Por fim, pegou uma pequena bomba caseira.
O quarto naquele momento estava tomado pela escuridão, e Christian não encontrou o mini-isqueiro e foi tomado por uma terrível angústia. Sem ele não poderia acionar a bomba e realizar o efeito de fumaça que imaginara. Tateou freneticamente o chão, até que achou o objeto, então, respirou mais aliviado. Bem no instante que pegou a máscara do Diabo, seu último acessório sentiu um calafrio. O vento lá fora sibilou, e um trovão bem longe anunciava uma tempestade dando um toque sinistro na encenação.
Devido ter tido essa sensação muito estranha. Christian decidiu abortar a brincadeira. Porém, ouviu passos aproximando-se e um impulso repentino e alheio à razão, fê-lo colocar a máscara mecanicamente. Nesse instante de consternação, Josué entrou na edícula, colocando os objetos no chão e acendendo a lâmpada. Eis que, porém, um vento tempestuoso fechou a porta assustando Josué. Christian quis falar-lhe, mas uma força sobrenatural travou sua boca, então a verdadeira face do diabo transmutou sua fantasia, fazendo-o prosseguir automaticamente com o plano sem a sua conivência.
(Caramba! Estou gostando dessa história. Pensei enquanto taquigrafava).
Para completar o martírio, um relâmpago cortou a luz por alguns segundos e quando voltou, o quarto estava tomado por uma densa fumaça vermelha e com um odor forte de enxofre queimado. Josué que nada entendia, tossia e abanava o ar com as mãos, na tentativa de dissipar a fumaça, que foi diluindo aos poucos. Então, percebeu, um vulto, saindo de trás do velho biombo, vindo em sua direção. E o som, produzido por seus passos, assemelhavam-se com a dos eqüinos quando caminham em lugares pavimentados.
Um misto de surpresa e desespero fez com que Josué abanasse com mais intensidade a fumaça, e perguntasse cheio de medo:
– Quem está ai?!
Raciocinando com rapidez, cogitou que só poderia ser seu amigo Christian, tentando devolver-lhe o susto – É claro! É o Cris – Pensou sorrindo e emendou:
– Hãm, hãm! Te peguei! Eu sei que é você Cris. Dessa vez não vai colar. Pode parar.
– Quem te disse que é o Cris?
Essa pergunta foi murmurada num tom baixo, porém grave e malevolamente irônica. E foi seguida por um trovão que estremeceu o quarto.
– Chega cara! Parou a brincadeira, eu sei que é você – Ordenou Josué com uma pitada de receio e já perdendo a paciência.
Eis, porém, que o ar rareou, ficando a fumaça menos espessa, revelando, a Josué uma silhueta espectral, que poderia ser tudo, menos seu amigo Christian. Acolhido por um temor latejante, Josué recuou com passos hesitantes, parando com as costas na porta fechada. E perguntou gaguejando:
– Que... Que... Quem é vo... vo... Você?!
Num gesto típico a do lobo ao uivar, o ser estranho, tirou seu véu aspirando toda a fumaça desanuviando completamente o quarto, deixando a mostra a sua forma mais repulsiva. A seguir respondeu num murmúrio, expondo uma dentição canina enegrecida. Acompanhada dum olhar zombeteiro:
– Eu sou o resultado das brincadeiras de mau gosto – O demônio vendo estampada a face do susto no rosto de Josué liberou uma risada longa e debochadamente maligna.
(Confesso que nesta parte da história, tive vontade de sair correndo da livraria. Pois, o Luciano Ferreira, tinha um jeito peculiar de narrar o causo dramatizando as cenas de um modo tão extravagante e ao mesmo tempo envolvente, que num lapso, pensei ter visto algumas mudanças em sua fisionomia, que já era um tanto quanto exótica. Porém, contive o impulso e mantive-me passivo, taquigrafando mecanicamente o causo).
Josué estava petrificado e apavorado com a aparição diabólica, que não conseguia emitir um ruído sequer. Com muito esforço, conseguiu destravar-se, então, virou-se agarrando a maçaneta da porta com intenção de abri-la para fugir dessa coisa das trevas. Mas... A porta estava trancada. Emudecido girava obstinadamente a maçaneta sem êxito.
Christian aflito assistia todo o drama vivido por seu amigo, sem poder esboçar a menor ajuda, pois a força demoníaca que lhe revestia o corpo era demais poderosa e impedia-lhe qualquer reação. E quando viu refletida no espelho antigo o reflexo da figura grotesca provinda, com toda certeza das profundezas do inferno. Então Christian lutou incessadamente com a fantasia, até que, finalmente conseguiu retirar máscara enfeitiçada.
No entanto, quando tocou no ombro do seu amigo para avisar-lhe que tudo havia acabado, foi um ato fatídico. Josué arregalou os olhos estupefatos contra a porta. Dai em diante, foi dominado por uma crise de horror, que o levou a sentir uma dor aguda na altura do coração, fazendo-o amassar o peito com a destra, num gesto de quem sofre um ataque cardíaco fulminante. Por fim, tombou inconsciente.
Christian pálido inclinou-se sobre Josué e tentou reanimá-lo, mas sem sucesso. Aturdido pensando nas conseqüências, teve uma idéia. Numa atitude desesperada retirou a fantasia colocando-a na mochila e colocou a sua roupa. Passou por cima do seu amigo, abriu a porta devagar e um vento frio açoitou-lhe o rosto. A barra estava limpa. Então, saiu correndo, pulou o muro de volta pra sua casa. Precisava ser rápido. Jogou a mochila num canto. Começou a garoar.
Christian correu num fôlego pelo corredor indo na direção da rua. Saiu de sua casa e foi diretamente para casa do Josué. Chegando lá, apertou a campainha, com uma falsa calma. Precisava ser cauteloso. Respirou fundo e aguardou angustiado e apreensivo. Até que dona Sofia apareceu.
– Ah! É você Cris. Entra que tá chovendo. E você já melhorou da gripe? – perguntou casualmente.
– Já... Já. Foi o Josué que chegou naquele ônibus dona Sofia? – indagou Christian dissimulado, sem demonstrar que estava com uma pressa danada.
– Foi. Ele está guardando as coisas na edícula. Espera lá na sala, o pai dele está assistindo um jogo – parou pensativa e disse num tom de preocupação:
– Estranho já faz algum tempo que ele está lá no fundo. Preocupada ela foi caminhando apressada para a edícula.
Christian nem bem entrou na sala, ouviu o grito desesperado da dona Sofia e na seqüência o pedido alarmante de socorro. O pai de Josué levantou num salto da poltrona e passou correndo por Christian indo na direção do fundo da casa, falando com espanto:
– Por São Benedito! O que aconteceu?!
– Não sei acabei de chegar – disse Christian acompanhando-o e isentando-se de qualquer ligação com caso.
A cena quer se viu na edícula, era comovente. Dona Sofia chorava escandalosamente, apalpando seu filho a procura de algum sinal que pudesse evidenciar a causa da sua inconsciência.
– O que aconteceu Sofia?! O senhor Paulo nervoso quis saber.
– NÃO SEI! – respondeu histérica – eu o encontrei assim. Rápido chame uma ambulância.
O socorro chegou rápido. Porém, os paramédicos não puderam fazer mais nada. Josué já estava morto. E o diagnóstico feito por eles, foi que, provavelmente o rapaz sofrera um infarto fulminante, e raro pela pouca idade da vítima. E que se tivessem sidos chamados no momento do acontecido, as chances de salva-lo seriam bem maiores.
Assim que foi dada a notícia trágica, já havia uma aglomeração de pessoas na casa, e a comoção foi geral. Os pais de Josué estavam inconsoláveis e precisaram de auxilio médico. Já Christian estava com o coração cheio de pânico e remorso, resolveu contar a todos o que foi que realmente aconteceu. Mas foi acometido, por um distúrbio selvagem e involuntário de contrações musculares, semelhantes a uma pessoa atormentada por algum espírito imundo e balbuciava com os dentes cerrados em meio a uma baba espumosa, palavras desconexas, como se tivesse sido impedido por alguma força misteriosa a não dizer a verdade sobre os fatos.
Foi preciso quatro homens para segurar Christian, para que o enfermeiro pudesse aplicava-lhe uma dose dupla de um calmante.
Noutro dia, quando acordou já em seu quarto, Christian lembrou-se do ocorrido, então as palavras que ele não conseguiu pronunciar no dia anterior veio-lhe à mente. “Não foi minha culpa! Eu só queria dar um susto no Josué, mas o Diabo apareceu de verdade e causou tudo isso. Não foi minha culpa!”. Então entre lágrimas, Christian resolveu omitir toda a verdade. Mesmo porque ninguém acreditaria, e os pais de Josué iriam crucificá-lo. Era melhor assim. E prometeu a si mesmo, que levaria aquele terrível segredo junto com ele para o túmulo.
Passaram-se cinco anos daquele fatídico dia, em que Christian na tentativa de vingar-se do susto que levou, acabou provocando a morte de seu melhor amigo.
Durante todo esse tempo, ele foi atormentado por visões e alucinações, que não lhe davam trégua, e que o levaram-no a um desvio comportamental radical. Christian parou de estudar. Passou a beber e a fumar. Além de alimentar-se muito mal. Seu sofrimento só era consolado por amigos, que sabiam da amizade que existia entre os dois. Até os pais de Josué que já haviam superado a dor da perda do filho, se comoviam com a aflição vivida por Christian. E várias vezes chamavam-no para almoçar junto com eles e assim se confortarem.
O que essas pessoas não sabiam, era que todo aquele martírio, era causado pela angústia e o desgosto de guardar a verdadeira causa da morte de seu amigo no mais absoluto segredo.
Mas não pense você...
(Luciano Ferreira me assustou, falando alto e apontando o dedo indicador para mim. E continuou empolgado).
...Que o infortúnio de Christian parou por ai. Não. Mas não mesmo. Já algum tempo, ele vinha sentindo dores em seu abdômen. Após um péssimo atendimento e alguns exames num posto de saúde, foi diagnosticada uma bela inflamação no estômago. O doutor passou-lhe uma dieta e uma medicação, que não foram seguidos à risca.
Em devaneio Christian brincava de futebol com seu amigo Josué no quintal de sua casa. Era uma manhã de domingo. Ah! Como ele adorava os domingos. Enquanto seu pai preparava um suculento churrasco e vinha da cozinha um cheiro de torta de morango, deixando mágicos aqueles momentos. Na brincadeira ele era o goleiro e seu amigo preparava-se para bater um pênalti. DE SUBITO! O dia virou noite. E o cheiro que pairava agora no ar era fétido e seu amigo metamorfoseou-se no Capeta em pessoa, e olhou para Christian, olhou para a bola como fazem os jogadores antes de bater um pênalti. Então, chutou a bola violentamente que foi em chamas em sua direção, como um meteoro quando adentra na atmosfera terrestre. Então, a bola fumegante atingiu Christian em cheio no estomago, fazendo-o cair no chão contorcendo-se de dor”.
(Os olhos de Luciano Ferreira brilhavam quando percebia que me assustava).
Christian voltou a si agônico e com uma terrível dor, visto que, havia passado o efeito do analgésico. Ele estava sem forças e muito cansado, já não suportava mais essa triste rotina. Perdera a noção do tempo, mas isso era uma coisa que não importava mais. Pois, ele estava moribundo em seu leito de morte sendo carcomido pela doença que avançava rapidamente pelo seu corpo. Como uma planta que vai sendo vorazmente devorada, por uma praga de lagartas, que vão comendo... Comendo... E vão comendo. E enquanto não acabarem com todo verde existente e a deixarem-na seca e esquelética, elas não param.
Contudo ao fechar os olhos ele sentia as células cancerosas multiplicando-se e avançando sobre seus órgãos vitais, diminuindo sua vida, tornando seu fim numa tortura de dor e desespero. Seu descanso só era possível, após altas doses de medicamentos que lhe eram aplicados regularmente, que o enchiam de um sono artificial que o transportava á delírios e pesadelos. Os médicos já sem muitas expectativas em relação a sua melhora, aplicaram-no uma dose forte de analgésico, com um único objetivo: Diminuir o sofrimento do paciente no momento de sua morte.
Christian abriu os olhos devagar, estava tudo embaçado. Contudo sentia uma melhora indescritível, era como se nada estivesse acontecendo. Não sentia nenhuma dor. Nada – Será que houve um milagre, tirando-me dessa situação caótica? – pensava – ou então, é a melhora da despedida – conjeturou sobre uma velha teoria que tinha a respeito da morte. Sabe como é. Você já deve ter ouvido falar algumas dessas histórias, que contam por ai, “fulano melhorou falou com todo mundo, e bimba! Amanheceu morto. Parece que melhorou só para se despedir”.
Aos poucos a visão de Christian foi se restabelecendo e toda a cena foi sendo focada.
Ao seu lado, sentada a beira da cama, estava sua mãe, que neste momento segurava sua mão e chorava inconsolavelmente e tinha no rosto as marcas de toda aquela angústia. Ele tentou consolá-la, dizendo que estava sentindo-se bem melhor e que logo sairia dessa, mas não conseguiu pronunciar nenhuma palavra.
Agora com a visão completamente restabelecida, viu seu pai ao lado de sua mãe confortando-a afagando-lhes os cabelos, e também chorava. Ao pé da cama, compenetrado com uma Bíblia aberta nas mãos, estava o pastor da igreja de sua mãe – Pastor?! O que o pastor está fazendo aqui? – foi então que caiu a ficha – Não! Não pode ser. Eu... Eu estou morrendo. Eu não quero!
– Hei Cris. Calma! – uma voz serena e aveludada, chamou-lhe atenção num dos cantos do quarto. E tinha algo de conhecido nessa voz. Então Christian firmou os olhos e viu seu amigo Josué envolto numa luz brilhante e seu olhar era tão belo que lhe trouxe conforto e uma paz maravilhosa.
– Josué! – ao perceber, que estava comunicando por telepatia com seu amigo, e que as pessoas não podiam lhes ouvir, Christian ficou intrigado – mas como?
– Calma amigo. Eu estou aqui, para ajudá-lo na transição.
– Como assim calma! Essa transição que você esta falando só pode ser a morte. Não é mesmo?
– Sim. Comigo também foi assim. Vou lhes explicar. Quando uma pessoa morre, é escalado um ente querido, para dar um apoio psicológico no momento da transição. No seu caso fui eu. No meu caso, foi meu tio que morreu em um acidente de carro quando eu era criança.
– E se eu recusar-me a ir com você?
– Ai você vai virar uma alma-penada, mas vou lhe dizer uma coisa. É melhor você aceitar. Não existe nada pior do que ficar numa dimensão, sendo atormentado de dia e de noite por toda a eternidade.
– Se é o jeito. Fazer o quê? Ah! Tira-me uma dúvida, o que foi mesmo que aconteceu naquele dia do susto, em que você partiu dessa para melhor?
– É assim. As brincadeiras tidas como de mau-gosto, como a de dar susto, como nós fazíamos um com o outro, e que despertam sentimentos como a do medo; pavor; horror; calafrios; sobressaltos; surpresa e o susto. São atrativos para o Demônio. Ele adora ver estampado no rosto das pessoas a face do susto. Portanto, quando a brincadeira é feita regularmente e com o tempero da vingança o Demônio resolve participar, dando um toque especial tornando trágico aquele momento.
– Você pode...
– Vamos Cris, pois o portal já vai fechar. Quando chegarmos ao nosso destino, você terá todas as respostas.
A mãe de Christian percebeu o momento em que ele desencarnou, então começou a chora copiosamente e todos se consolaram mutuamente.
Porém, antes de atravessar o portal, Christian refugou e ameaçou a olhar para trás. Estava triste com o sofrimento de seus pais.
– Não. Não olhes para trás. Eles vão ficar bem. Venha, segure na minha mão – pediu Josué.
Ele atendeu ao pedido, e segurando firme na mão do amigo adentraram no portal de luz. Durante a transição do plano físico para o espiritual, Christian sentia uma sensação indescritível de conforto e segurança.
(Luciano Ferreira, narrava esse final com uma voz calma, serena e cheia de paz).
DE SUBITO!
(Luciano Ferreira mudou o tom e passou a narrar o causo com aquela voz soturna e maligna surpreendendo-me)
... A luz do portal se apagou. Assustado ele segurou mais firme a mão do seu amigo, mas, percebeu que ela não tinha mais aquela maciez de antes. Agora estava toda áspera e repugnante. Christian travou uma luta violenta no escuro para conseguir se soltar daquela mão asquerosa. Por fim, quando a luz retornou, pairava no ar uma densa fumaça vermelha e tinha um cheiro de enxofre queimado.
Ele estava confuso com a situação e veio-lhe na mente uma sinistra sensação de estar revivendo o pior momento de sua vida. De fato, essa intuição foi confirmada, quando a fumaça dissipou completamente, revelando o Diabo na sua forma mais humana no lugar do seu amigo Josué. E ele estava com um sorriso cínico e debochado numa boca que parecia não ter lábios. E seus olhos castanhos que mudavam de cor estranhamente, estavam fixos em Christian, que pego de surpresa, levou um tremendo de um susto.
Estático...
(nesse momento, enquanto taquigrafava o que parecia ser o final do causo em minha agenda. Tive uma impressão, pelo modo de falar e como me olhava que o Luciano Ferreira, falava de si mesmo. E um calafrio percorreu toda extensão do meu corpo, fazendo-me empertigar-me e instantaneamente pus-me em alerta).
... Christian teve forças apenas para um balbucio:
– Quem é você?!
– Quem sou eu? Ah! Ahahahahahah...
(Luciano Ferreira estava convincente demais para o meu gosto!).
... Quem sou eu? Você quer saber quem sou eu? Eu sou o Diabo; o Demônio; o Demo; o Satanás; o Satã; o Capeta; a Coisa Ruim; o Tinhoso e, e, o Lúcifer, mas conhecido também como Luci...ano Fer...reira, proprietário de uma sinistra livraria e seu guia para o inferno. Ahahahahahahahahahahah!
Quando Luciano Ferreira, metamorfoseando-se em uma criatura diabólica, revelou que era nada mais, nada mais, nada menos que o próprio Lúcifer. A principio quase morri de susto. Porém, um instinto de sobrevivência reabilitou-me, fazendo-me sair em disparada no rumo da saída. Meu desespero só aumentou, quando percebi o óbvio: a porta da livraria estava trancada.
Briguei com a maçaneta da porta por alguns instantes, sem sucesso. Aflito, olhei de relance para trás e vi o capeta retirando o “Livro dos Mortos” da redoma de vidro e certamente seria para eu assinar. O meu desespero se multiplicou!
Lá dos fundos da livraria, aonde era de escuridão total, tinha agora uma aparência de uma boca de um vulcão prestes a entrar em erupção, emanando uma quentura infernal e um cheiro fétido de enxofre queimado. Percebi também, que quando, as lâmpadas dos castiçais e do candelabro, transformaram-se em velas de verdade, vários livros caíram das prateleiras, com suas páginas esvoaçando e liberando dessas páginas, as criaturas diabólicas que faziam parte daquelas histórias macabras.
Vendo estampado em mim a face do susto, o Capeta soltou uma sonora e maligna gargalhada e veio em minha direção com o livro aberto nas mãos e foi seguido pelas grotescas criaturas.
E para aumentar meu espanto, até os retratos dos célebres escritores criaram vida e riam de mim. Contudo, fui tomado por um pânico insano. Comecei a gritar por socorro e a bater na porta de vidro desesperado, na esperança de que alguma daquelas pessoas que passavam em frente à livraria naquele momento, pudesse ajudar-me. Mas, apesar de bater com toda força na porta, a ponto de doer minhas mãos, por algum motivo eu não era ouvido.
Então, já sem saída. Fechei os olhos e fiz com muita fé o ritual da cruz três vezes com o polegar direito: uma na testa; uma na boca e a outra no peito. E pronunciei a fórmula litúrgica – “Pelo sinal da Santa Cruz livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Amém”.
Após, ter pronunciado a prece divina, ouvi o estalar da porta destrancando. E quando abri meus olhos, eu vi a porta aberta, e nem deu tempo para agradecer o milagre atendido. Sai em disparada daquele antro vil e asqueroso, sem olhar para trás. Na calçada atropelei uma pessoa que caiu no chão juntamente com todos os pacotes que estava em suas mãos. Mesmo assim, continuei na minha fuga.
Aquela atitude estranha e suspeita, atraiu a atenção de um policial que estava nas proximidades, fazendo-o sair ao meu encalço. Atravessei a avenida perigosamente, e quando cheguei à frente da rodoviária, o policial finalmente me alcançou e segurando-me pelo braço fez-me cessar com aquela correria.
– Senhor. O que aconteceu?! – interpelou-me sério com uma das mãos no coldre.
– É que... – sentindo-me seguro, mas ainda com receio, me virei apontando para a livraria sem olhar para o policial. Então, eu vivenciei a verdadeira acepção da palavra: “fantástico”. A livraria não estava mais lá. Desapareceu. Sumiu. Escafedeu-se. Agora em seu lugar havia uma pitoresca floricultura. Fiquei pasmo. Não era pra menos. E o que dizer para o policial? Ele não vai entender nada. Ele ia achar que eu era um... Um... Louco. E para completar a minha gastrite alfinetou meu estômago, fazendo-me gemer bem baixinho. Vendo-me daquele jeito o policial insistiu;
– O senhor está passando bem?!
A desculpa salvadora veio com o despertar do alarme do meu celular, avisando-me que eram 13h30minh. Portanto, faltavam apenas quinze minutos para meu ônibus sair.
– É que, eu... Eu estava dando umas voltas, e pensei ter perdido o horário de saída do meu ônibus. Mas, ainda faltam quinze minutos. Graças a Deus.
– Tudo isso, só para pegar um ônibus? Tome mais cuidado, você derrubou uma senhora e quase foi atropelado. Preste mais atenção.
– Tudo bem seu guarda, foi mal.
Após o sermão, o policial deixou-me fazendo com a cabeça um gesto em desaprovação. Enfim entrei na rodoviária. Peguei minha bolsa de viagem no guarda-volume. Passei rapidamente numa farmácia que ficava dentro da própria rodoviária e comprei um hidróxido de alumínio em comprimidos, para aliviar a queimação em meu estômago. Comprei minha passagem. E entrei correndo no ônibus, que já estava prestes a sair. E isso nem deu tempo para eu pensar no acontecido. Além disso, estava ansioso para ir embora daquela cidade.
Já dentro do ônibus, peguei no frigobar um copo de água, sentei-me na minha poltrona bem no momento em que o motorista começou a manobrar para sair da rodoviária. Pus dois comprimidos na boca e comecei a mastigá-los, tomei um bom gole de água. E por fim murmurei – Que história. Que historia?! – lembrei-me da minha agenda e bati a mão no bolso da minha camisa. Ela estava lá. Não me lembrava de ter guardado. Mas não importa. O que importa é que ela estava comigo.
Retirei a agenda do bolso e pus-me a folheá-la. A história estava toda lá em notas taquigráficas. Pelo menos isso. E era uma prova, de que eu, não estava ficando louco e tendo alucinações típicas de um esquizofrênico ou coisa parecida.
Notei, porém, que o ônibus iria passar novamente em frente ao lugar aonde eu vivi aquelas terríveis fantasias. Diante disso, senti um enjôo e quase vomitei.
O que aliviou o meu desconforto foi saber que a livraria das trevas não estava mais lá. Agora já passando em frente à singela floricultura, inclinei-me para vê-la melhor. Numa placa eu li seu nome: Jardim dos Sonhos. Vi também uma senhora baixinha com um avental colorido limpando uma banca de flores. DE REPENTE! Aconteceu de novo. Ela virou-se e olhou diretamente para mim com um sorriso cínico numa boca que parecia não ter lábios.
O “susto” foi inevitável. Afundei-me na poltrona, desejando nunca ter parado naquela cidade. E na minha volta para casa, fiz o possível para não passar por ali novamente.


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"De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato."
(Mark Twain)



A PROVAÇÃO
Em toda minha vida fui apreciador de boas histórias. E esse gosto nasceu na minha infância. Pois, minha mãe era uma excelente narradora de causos. E toda à noite sempre depois do jantar, a gente se reunia à luz de lamparina para conversar. Eu ficava ansioso para que alguém quebrasse o gelo e pedisse para minha mãe contar uma de suas histórias. Como eu não tinha coragem para pedir torcia para que alguém tomasse a iniciativa. E quando ela começava, não parava mais, era uma historia atrás da outra e sempre ela finalizava com história sobrenatural. E eu. É claro! Implorava para dormir com a mamãe.
Agora que estou adulto, recordo-me com saudades daquele tempo. E vem daquela época, o meu gosto pelo fantástico. Época em que adquiri uma mania insuportável e torturante, que faço até hoje. “Olhar debaixo da cama, todas às vezes que vou me deitar”. Sei que é inconcebível que em pleno século XXI exista um ser humano de caráter tão supersticioso quanto eu. Sei também que em todos os momentos ocorrem fatos “sobrenaturais”, e só não vê quem não quer.
Em contrapartida, conheci um sujeito, que era totalmente o oposto de mim, em relação a superstições. Era um cético convicto. E é a história deste individuo que vou lhes contar. A polícia deu o caso por encerrado: um acidente infeliz. Mas eu como conhecido da vítima e sabedor de alguns detalhes, tenho a minha versão dos fatos e passo-lhes, agora, em primeira mão como foi que realmente, “as coisas” aconteceram.
Francisco chegou exausto em sua casa. Seu time ganhou todas as partidas naquela noite na pelada que jogam todas as sextas. Tomou um banho relaxante e preparou um suculento macarrão instantâneo, sua especialidade (pela praticidade é claro), que consumiu avidamente assistindo a um programa humorístico.
Devido a um compromisso inadiável que tinha pela manhã, Francisco precisava descansar. Desligou a teve e foi deitar-se. A adrenalina estimulada pela atividade física ainda estava circulando em seu organismo deixando-o sem sono – droga! – esbravejou acendendo o abajur.
Retirou do criado-mudo o livro que estava lendo no momento. Da quarta pra quinta página já estava sonolento. Marcou a página e com gestos bem suaves conferiu as horas no celular: 23h45min. Desligou o abajur e acomodou-se de bruços pensando na vida:
Francisco vivia um momento feliz, tinha casa... (um leve torpor)... Carro, um bom emprego, amigos... (uma sonolência gostosa)... Uma bela namorada que ficava chateada... (um sono, um sono)... Toda vez que ele ia jogar futebol... (hum que sono)... Precisa lembrar-se de comprar... Um relaxante muscular... O acido-latco vai deixar seu corpo... Todo dolo... dolo... dolo... rido. E o sono chegou entorpecente.”
Miauuu... O miado estava bem longe lá no escuro da noite. Miiaauu... Agora o miado estava aproximando-se. Miiiaaauuu... Surgiu na escuridão dois pontos amarelos que aumentavam de tamanho conforme aumentava a proximidade do miado. MIIIAAAUUU... No negrume da noite as luzes amarelas vinham na direção dele numa velocidade espantosa. MIIIAAAUUUUU... A imagem do gato negro solidificou-se bem na frente de Francisco e tinha os pelos da face arrepiados e grandes olhos amarelos, e grunhiu ameaçadoramente mostrando imensos e afiadíssimos dentes, e da sua boca saiu uma enorme língua bífida. Vai pular... Vai pular... PULOU.
Francisco acordou atônito com as mãos em frente ao rosto num puro instinto de defesa. Ainda “grogue” viu a imagem do gato negro num realismo sobrenatural que foi dissipando lentamente... Miauuuu... E dissipou completamente. Atordoado sentou-se na beira da cama – Que pesadelo horrível – murmurou acendendo o abajur para ver as horas: 00h31minh – Ter um pesadelo justamente na transposição de onze para meia-noite é sinistro – Pensou sorrindo.
MIIAAUUUUUU... O miado invadiu o silêncio do quarto como se gato estivesse ali dentro. Francisco gelou da ponta do dedão até o último fio de cabelo. Ficou com taquicardia do tremendo susto que teve. Ouviu mais miados acompanhados de grunhidos vindos de fora de sua casa. Francisco com sensatez reorganizou os pensamentos e seus batimentos cardíacos baixaram – Bom. Vamos lá! O meu cansaço trouxe um sono pesado e transformaram os miados vindos lá de fora num pesadelo horrível. É claro! Só pode ser isso – Satisfeito com sua auto-explicação, ficou sentindo-se melhor.
A coisa lá fora piorou. Agora havia uma tremenda briga de gatos que disputavam uma gata no cio. E pelos cálculos os felinos estavam cruzando na sua área de serviço, que fica nos fundos de sua casa conjugada com a cozinha. Sem acender as luzes, Francisco foi para a cozinha, decidido a acabar com aquela baderna. Lá procurou nas gavetas da pia algo que pudesse usar para dar uma lição naquelas pestes. Não encontrou nada. Vasculhou o armário apalpando os objetos e lá sim encontrou algo que ia servir. Um belo espeto de churrasco – Perfeito! – murmurou baixinho.
Francisco abriu a porta vagarosamente, tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas as dobradiças da porta protestaram rangendo pertubadoramente. O ruído inesperado fez com que os gatos que estavam espalhados no quintal se evaporassem na escuridão. Irritado por perder o recurso da surpresa, Francisco esbravejou um palavrão ininteligível.
Ainda na esperança de encontrar algum animal para saciar seu desejo de vingança, com prudência, ele passou do interior para o exterior da casa. Caminhou com passos calculados pela varanda que tinha o assoalho de madeira, segurando firme o espeto. Após dois passos, ele ouviu um grunhido enérgico e viril vindo do telhado bem sobre a sua cabeça. Sorriu maliciosamente satisfeito por saber que os principais protagonistas desse dramalhão ainda estavam na cena do crime ocupados na consumação do ato sexual. Rapidamente, Francisco olhou em sua volta a procura de algo que pudesse escalar para espiar o telhado.
Francisco calculou mentalmente a altura dos objetos que dispunha na varanda com sua altura e concluiu que a máquina de lavar roupas serviria para seu plano – Bom! “Quem não tem cão caça com gato” – Diz o provérbio, mas o gato aqui em questão é a caça. Francisco carregou a máquina com certa facilidade devido à leveza do objeto e colocou-a escorada na viga que sustenta o telhado da varanda. Com ajuda de uma cadeira subiu em cima da máquina com atenção redobrada para não fazer barulho. Com a mão esquerda apoiava-se na viga e com a mão direita segurava o espeto. Assim considerou-se pronto para ação.
Francisco foi levantando a cabeça bem devagar para obter uma melhor visualização do telhado. Com os olhos acostumados com a escuridão, viu a cena. Para sua sorte, os animais estavam de costas para ele, e percebeu que o animal que estava em cima do outro, que só poderia ser o macho, era de um tamanho anormal. Um enorme gato negro. Os animais estavam concentrados no ato sexual, e não perceberam a sua presença. Chegara o momento de ir à forra. Então sorriu sadicamente. Espera! Ele teve um dilema: iria bater ou espetar o animal? E mentalmente utilizou a brincadeira do bem-me-quer, mau-me-quer para escolher a melhor opção: Bater? Espetar? Bater? Espetar? Bater? ESPETAR! E atiçou o espeto traiçoeiramente nas costas do animal, que surpreso, grunhiu sonoramente e num salto ficou de frente ao seu agressor. A fêmea sumiu como um raio. O macho não. Outro animal qualquer fugiria com o rabo entre as pernas, mas esse não. Esse era diferente.
Um feixe de luz vindo sabe lá de onde, iluminou a face grotesca do animal. Francisco gelou pela segunda vez nessa noite – não pode ser – pensou num milionésimo de segundo. Era o mesmo gato do seu pesadelo. Tinha os mesmos pelos arrepiados na face e grandes olhos amarelos que crispavam de ira. Pairou um silêncio sepulcral entre os dois. Como num duelo os dois se entreolhavam. A cauda da criatura movia-se nervosamente. Então, mostrou seus incisivos pontiagudos num gesto de superioridade. Nesse momento, Francisco tomado pelo medo, deu um passo para trás desequilibrando-se, e por fim caiu de costas no chão como um fardo.
A criatura apareceu na beira do telhado com um olhar fulminante sobre ele, e entreabriu sua mandíbula num sorriso diabólico, mostrando uma enorme língua bífida e saltou resoluto. Num gesto de puro reflexo, Francisco pegou o espeto que estava ao seu lado e segurando firmemente com as duas mãos, apontou no rumo que vinha a criatura, que sem chances encontrou-se com a ponta afiada do espeto. O espeto atravessou o pescoço do grotesco animal ferindo-o mortalmente. A criatura contorcia-se de dor emitindo miados e grunhidos de dar calafrios. Mesmo assim, ainda tentou atingi-lo com suas garras afiadas, sem alcançá-lo. Francisco, desesperado tentou arremessar a criatura para bem longe, mas sem potência necessária para o ato a criatura caiu morta o seu lado, jorrando sangue e tendo movimentos de reflexos desencadeados pelo seu sistema nervoso.
Francisco olhou a criatura caída sem vida e com determinação levantou-se para certificar, se a matara realmente. Muito cismado, cutucou-a com o pé. Nada. Outro cutucão. Nada. Estava morta. Mas algo lhe chamou a atenção! A aparência fantasmagórica da criatura desapareceu, ela tinha agora uma aparência normal de um inofensivo gato doméstico – será que misturei o pesadelo que tive com a realidade?! Só pode ser. O que mais seria?! Ou será que tive uma ilusão de ótica? – Francisco pensava intrigado procurando uma resposta dentro da realidade para os fatos. Seu ceticismo convenceu-lhe que tudo não passou de uma instigante ilusão de ótica.
E num gesto de total domínio da situação ele retirou o espeto que estava cravado na garganta do gato morto, e com repugnância colocou-o dentro de um saco de lixo, para em seguida desová-lo na lixeira que fica em frente a sua casa. Tomou um banho e foi deitar-se, mas dessa vez não teve tempo nem pra contar carneirinhos.
Francisco abriu os olhos, mas não quis se levantar. Seu corpo estava muito dolorido, principalmente as costas. E lembrou-se de uma piada. “Uma senhora foi ao médico: - Doutor eu sinto uma dor em todos os lugares aonde toco. Mostre-me, por favor – pediu o doutor. E com o dedo indicador direito, a senhora tocou em sua perna – ai! - Tocou em sua barriga – ai! – Tocou em seu braço – ai! – Tocou em sua cabeça – ai! – O doutor a examinou. E concluiu: a senhora esta com o dedo quebrado”. Francisco sorriu espreguiçando-se – Que noite péssima. Caramba! – pegou o celular e leu no visor: sab 01 de nov 09h51minh. Nossa! Estou morto! - Exclamou estupefato correndo para o banheiro.
A partir desse dia, Francisco começou a sofrer uma série de infortúnios.
Por ter chegado atrasado ao compromisso, ele perdeu a oportunidade de fechar um excelente negócio. O concorrente fechou em seu lugar. Imperdoável. A indústria a qual representava tirou-lhe a concessão. Ficou desempregado. Noutra semana numa bebedeira, um colega pediu-lhe o carro emprestado. Resultado: seu colega embriagado envolveu-se em um acidente. Perda total. Nem para sucata serviu. Sem seguro, ficou a pé. Numa partida de futebol torceu o joelho e rompeu o ligamento cruzado. Sentença: um ano sem poder jogar futebol. Para um amante desse esporte isso era um sofrimento.
Entre uma desgraça e outra, passaram-se sessenta dias. Foi nesse período que nasceu uma ninhada de gatos no fundo do seu quintal. Exatamente cinco: dois brancos com rajadas amarelas; dois cinza e um totalmente negro.
Ele só percebeu seus novos inquilinos, quando estes já estavam fazendo estripulias pelo quintal. Até aí tudo bem. Mas quando tentaram entrar em sua casa choramingando com caras de pidões. Aí foi que Francisco saiu do sério. Imaginem a cena: cinco pestinhas chorando com fome e sentindo a ausência da mãe desnaturada. Era um verdadeiro pé no saco. Não deu nega. Francisco decidiu que teria que dar um fim naqueles demônios. E no momento em que pegou o saco de lixo que iria usar para colocá-los, veio-lhe na mente a imagem da criatura do seu pesadelo. A lembrança fê-lo estremecer, mas se recompôs voltando para a realidade. E partiu para a ação. Foi um corre-corre e um baco-baco violento. E após alguns arranhões capturou quatro pestinhas. O pretinho enfiou-se debaixo do assoalho da área de serviço, dificultando a sua captura. Várias tentativas e nada. Desistiu prometendo pegá-lo em outra oportunidade.
O tempo foi passando e as tentativas frustradas iam acumulando-se uma atrás da outra. O animalzinho foi crescendo e Francisco se acostumou com a companhia dele. E ficou uma convivência um tanto quanto sinistra. Quando um entrava na casa o outro saía e vice-versa. Ele só não sabia por onde o gato entrava.
Essa situação tinha o lado bom e o lado ruim. O bom era que o animal mostrou-se um excelente caçador e exterminou todas as baratas e ratos que havia na casa. O lado ruim era que sem as pragas o gato não tinha o que comer e começou a se comportar de modo furtivo. Sem falar na bagunça que ele fazia na lixeira da cozinha. E quando isso acontecia era um corre-corre e um baco-baco de tremer a casa. Só que Francisco nunca tinha êxito em pega-lo. “O desgraçado” era arisco, rápido e ágil, e desaparecia sem deixar vestígios. Isso resultou em uma antipatia mortal pelo animal.
De todas as calamidades que ocorreram com Francisco, a que mais lhe causou sofrimento, foi quando a sua namorada terminou o relacionamento com ele. Ai sim foi pro fundo do poço. Ele gastou suas últimas economias nas tentativas de reconquistá-la. Mas foi repudiado e desprezado.
Com a decepção amorosa, ele buscou refúgio na bebida. Foi nessa fase em que me encontrei com Francisco.
Francisco estava perambulando pelas ruas a esmo. E no mesmo instante percebi que ele precisava de ajuda. E começamos a conversar. Ele me falou de seus problemas, e eu como já sofri várias decepções amorosas, dei-lhe muitos conselhos que foram ouvidos com atenção. A conversa prolongou-se e ele me contou uma história estranha sobre um gato negro. Ouvi atentamente arrepiando-me a cada detalhe. No final da história, eu como sou supersticioso, associei o caso do gato com sua má fase. Nossa! Ele quase me bateu. Disse-me que não acreditava nessas besteiras, que isso era ridículo e que era melhor eu calar minha boca. Então começamos a discutir calorosamente. E para não ir às vias de fato, virei às costas e fui embora, sem dizer para Francisco que aquela sexta-feira, dia do incidente com o gato negro, era 31 de outubro, portanto, “Dia das Bruxas”, um dia propício para acontecimentos sobrenaturais.
Dizem que, “quem bebe os males esquece”. Ele continuou a beber. E o dinheiro para compra das bebidas, Francisco obtinha nas vendas dos objetos que tinha em sua casa. E foi acabando com tudo. Chegou a ponto de dormir nas ruas, jogado feito um pé inchado. E os amigos terminaram de sumir de vez.
Numa dessas noites impulsionado pelo efeito etílico, ele tentou invadir a casa da sua ex-namorada. Resultado: a polícia foi acionada e enquadrou o meliante, que reagiu e foi preciso o uso da força para domá-lo. Na confusão Francisco perdeu dois dentes da comissão de frente. Agora o quadro estava completo: cabeludo; desdentado; barba por fazer; as roupas um trapo; sem emprego; sem namorada; sem amigos e sem a dignidade.
Como era réu primário, sem antecedentes e com endereço fixo, noutro dia pela manhã foi liberado. Só que antes de sair, teve que assinar um termo de compromisso que ia deixar a moça em paz. Tudo certo. Então ele foi solto.
No caminho para sua casa, Francisco tomou uma decisão: Já era hora de tomar as rédeas de sua vida. Venderia sua casa à única coisa de valor lhe restava e recomeçaria a vida em outro lugar. Nesse momento de reflexão, ele estava passando bem em frente a um restaurante aonde costumava almoçar. Parou e curtiu o cheiro gostoso que estava no ar. Estava com uma baita fome e sem um tostão.
Incomodado com a presença dele em frente ao restaurante, apareceu um garçom disposto a expulsá-lo, mas foi impedido pelo gerente do local que reconheceu seu antigo freguês. Com fineza, pediu-lhe para aguardar em um canto aonde não poderia ser visto pelas pessoas que estavam almoçando naquele momento. Alguns minutos depois o gerente retornou trazendo-lhe um marmitex. Francisco apenas meneou a cabeça em agradecimento e foi embora cabisbaixo e envergonhado.
Ao entrar em sua casa, percebeu quando duas vizinhas olhavam-no curiosamente e cochichavam algo a seu respeito, e prontamente disfarçaram assim que foram notadas. Francisco envergonhou-se novamente. E buscou nesse sentimento a força que necessitava para mudança. A fênix vai renascer, prometeu para si mesmo enchendo-se de auto-estima.
Na cozinha, fez um copo de suco que achou perdido numa das gavetas da pia. Arrumou solenemente a mesa para degustar sua refeição. Há muito que não tinha um almoço decente e estava “com o estômago pregado nas costas”.
Francisco fez um pano de prato encardido como babadouro e sentou-se para ceia. Já ia para a terceira garfada, quando teve uma sensação de estar sendo observado. Parou como estátua com o garfo abastecido em frente da boca aberta. De soslaio foi girando a cabeça para sua direita bem devagar. Assim foi distinguindo a figura do gato negro, que o fitava do canto da cozinha com a cara cheia de fome. Como passara alguns dias fora, tinha se esquecido do seu funesto inquilino – não vem que não tem – disparou colocando a comida na boca sem tirar os olhos do gato. Sem se intimidar o gato foi miando na direção dele. E pela primeira vez o gato se aproximou e esfregou-se nas pernas de Francisco ronronando, com gestos carinhosos e humilhantes na esperança de ser recompensado.
A reação de Francisco foi dar-lhe um tremendo chute afastando-o de perto. Miando muito o gato voltou a investir. Agora num ataque rápido tentou escalar sua perna e foi novamente enxotado. Num puro gesto de egoísmo ele não parava de comer. Ele até aumentou a velocidade das garfadas e esbravejava palavrões com a boca cheia de comida. Mudando de estratégia, o gato num pulo subiu em cima da pia, com a intenção nítida de se aproximar por ali da mesa em que Francisco estava almoçando. Caminhado em cima da pia, o gato resvalou e derrubou ao chão o copo de suco que ele fizera e se esquecera de pegar.
Francisco levantou-se colérico, com o garfo em punho na posição de ataque. O gato, percebendo o perigo pulou para o chão em fuga (mas foi uma fuga estranha, foi como se o gato quisesse que Francisco fosse atrás dele). Com a boca cheia Francisco saiu no encalço do animal, disposto a matá-lo. Mais não foi longe. Na terceira passada escorregou violentamente no suco que estava derramado o chão. Descrevendo um meio circulo no ar, caindo pesadamente e sinistramente com a nuca bem em cima do fundo quebrado do copo de vidro. Mortalmente ferido pelo vidro que agora estava atravessado em sua garganta, Francisco regurgitava com sangue a comida que ainda estava em sua boca.
Com um resquício de consciência, ele viu o gato passar despreocupadamente e num salto galgar a mesa, ficando de costa. E sem receio começou a comer sua refeição.
Francisco que estava tendo movimentos de reflexos desencadeados pelo seu sistema nervoso, num fio de vida ainda percebeu que, conforme o gato se alimentava ele ia aumentando de tamanho, até que atingiu uma forma que ele já conhecia. Então, a criatura virou-se, tinha os pelos da face arrepiados e grandes olhos amarelos. E lambendo os beiços com sua enorme língua bífida miou para Francisco diabolicamente com escárnio. MIAAUUUUUU...
E você, se considera um supersticioso ou um cético? Cuidado com a resposta, pois você poderá ser submetido a uma Provação


“Deus está nas coincidências”
Nelson Rodrigues



Neste breve relato, falo de um assunto que exerce em mim, e em tantas outras pessoas, uma fascinação extraordinária: “As coincidências”, que ocorrem em nosso cotidiano. Acredito (e falo isso apenas por mim), que há uma força sobrenatural operando tais eventos, mudando o curso de acontecimentos, levando-os a fins improváveis e muitas vezes dramáticos.
No caso que vem a seguir, a “coincidência”, não trouxe grandes conseqüências, mas, se tivesse acontecido, um pouco antes no tempo, talvez Raimundo Nonato tivesse tido uma reação mais contundente, para não dizer violenta, porém, nesse caso, o sobrenatural operou, apenas para transformar um sujeito extremamente brincalhão em alvo principal de suas gozações.


Raimundo Nonato era um cearense de um senso de humor super-aguçado. Alias característica peculiar herdada do povo nordestino. Rai como era chamado por todos na empresa onde trabalhava, tinha uma capacidade nata para contar piadas e teatralizar situações do cotidiano, deixando-as cômicas e engraçadas, portanto era muito popular em seu trabalho.
Rai fazia brincadeira com todos que passavam em sua zona periférica. Algumas pessoas desviavam dele fazendo outro percurso para não ser alvo de suas brincadeiras. Seus olhos e ouvidos estavam sempre prontos para distinguir qualquer anormalidade nelas. Seja na voz, no andar, na altura, no peso, no vestuário, na cor etc.
Seu principal tema era sobre o CORNO. Era corno pra lá, corno pra cá. Ele estava até montando uma enciclopédia intitulada: “O Abecedário dos Cornos”. Corno Açúcar (depois de levar um chifre, ficava doce, doce com esposa), Corno Biênio (leva chifre de dois em dois anos), Corno Cuscuz (quando fica sabendo abafa), e assim ia.
Para terminar seu abecedário estava faltando achar um significado para o Corno da letra R. Como era um sujeito muito gaiato, seus companheiros também tiravam onda com ele – Hei Rai, nós achamos que o corno da letra R é você mesmo. “Corno Rai”. - dizia um, fazendo todos rirem.
Certo dia, Fernando um de seus companheiros de trabalho, chegou pela manhã com o olho esquerdo roxo. É claro, que despertou a atenção de todos.
Para saciar a curiosidade da turma, Fernando contou que ao trocar a lâmpada do seu quarto a cadeira que estava utilizando quebrou e que ao cair batera seu rosto na cabeceira da cama. Só que essa história não convenceu o Rai, que imediatamente apelidou-o de Zorro. E quando lhe perguntavam o porquê desse apelido ele dizia: – O Zorro não usa máscara? Então ele é o corno da letra M “Corno Mascarado” (além de levar chifre apanha da mulher) - ria utilizando com orgulho seu abecedário – Pessoal, ele não caiu da cadeira não. Ele apanhou da mulher, e veio com essa conversa fiada de cadeira quebrada. Aqui não Cornão! - bradava na maior empolgação, deixando Fernando morto de vergonha.
Um belo dia, Rai foi escalado para entregar uma encomenda em uma loja de vendas de Pneus.
– Rai faça-me um favor. Entrega essa encomenda para telefonista, o nome dela é Ana Paula - pediu Dona Valdirene chefe do setor administrativo, entregando-lhe uma caixa – O endereço está aí – completou.
– Espera aí Rai - chamou-lhe antes que saísse para cumprir a missão – Tenho um causo dessa telefonista para lhe contar - falou em tom confidente.
– Demoro! Adoro uma boa fofoca.
– Bom... - prosseguiu rindo Dona Valdirene – Um ano e meio atrás, essa Ana Paula estava tendo um caso com o Chico marido de minha vizinha...
– Muuuu... - interrompeu Rai imitando um Touro com as mãos em forma de chifres sobre a cabeça.
– Pára Rai! Deixa-me terminar. Ah! Vê se não sai espalhando essa história por ai - pediu rindo. Mas, no fundo ela sabia que isso era uma coisa impossível.
– Só pra torcida do Flamengo – Rai brincou.
– Falo sério.
– Tá bom, eu sou um túmulo - falou com a mão na boca e revirando os olhos.
– Bom vamos lá - disse dona Valdirene rindo do jeito dele – O Chico como é conhecido o marido de minha vizinha, inventava que ia jogar futebol com os amigos, e na verdade ele ia era se encontrar com essa tal de Ana Paula, que na época trabalhava como telefonista no Hospital bom Jesus...
– Espera aí! Como é que é? - Rai Interrompeu-a bruscamente com um frio na espinha e ligeiramente pálido – Como é que é essa Ana Paula? - perguntou nervoso.
– Por que Rai? - Indagou dona Valdirene assustada com o jeito dele.
– Vamos diga-me! - insistiu impaciente.
– Morena de cabelos pretos e lisos, com cerca de um metro e sessenta. Tem olhos castanhos... Mas por que a curiosidade?
– Isso foi em que ano?
– Ano retrasado...
– Aquela safada! Liga agora lá na Loja dos Pneus para mim - pediu com cara de poucos amigos.
– Mas o que foi Rai? - perguntou Dona Valdirene Já receosa.
– Vamos liga que a senhora vai saber - prometeu.
Dona Valdirene muito curiosa fez a ligação e passou-lhe o fone. Após dois toques foi atendido.
– Loja dos Pneus, Ana Paula, bom dia - atendeu a telefonista.
– Bom dia o quê? Sua safada! Sem vergonha! - atacou Rai.
– Alô! Quem está falando? - perguntou Ana Paula espantada.
– Aqui é o Rai...
– O senhor quer falar com quem?!
– Com você mesma sua vagabunda!
–?! Acho que o senhor ligou enganado...
– NÃO! Não liguei enganado não. Sou eu o Rai, seu ex-namorado. LEMBRA?
– O que está pegando Rai? - perguntou Ana Paula já com medo.
– É que hoje sem querer, eu descobri que no ano retrasado, quando você trabalhava no Hospital Bom Jesus, e nesse período nós estávamos namorando. Você estava me CHIFRANDO com um cara chamado Chico. Lembra? Sua VADIA!
A partir desse momento dona Valdirene entendeu a sinistra “coincidência” que ocorreu e desatou a rir da situação.
Ana Paula se lembrou e com voz macia tentou amenizar a situação:
– Pôxa Rai! Isso já faz um tempão.
– A vontade que eu tenho é de... é de... deixa pra lá, sua VACA! - desligou batendo o telefone indo à direção da porta.
– E aí Rai, não quer ouvir o resto da história? - provocou dona Valdirene que não agüentava de tanto rir.
– Não quero saber de mais nada! - disse Rai ameaçando sair.
– Não vai levar nem a encomenda? - tornou a provocar dona Valdirene.
– Manda outro - pediu Rai – Se eu for lá, sou capaz de dar uma surra naquela safada.
– Que é isso Rai? Que violência é essa? - perguntou ainda rindo.
– Chifre dói, dona Valdirene, chifre dói.
Dona Valdirene não era um túmulo. Então daquele dia em diante, Rai ficou eternamente conhecido como: O Corno Retardado (fica sabendo sempre atrasado), completando consigo mesmo seu Precioso Abecedário.

 
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